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A dor e a delícia de ser… pai de tenista!

 Fernando T e carlos taricano

Por Carlos Taricano

Tudo começou na Copa Davis, Brasil x Canadá. Guga e Meligeni em quadra no Marapendi, no Rio de Janeiro. Todos os dias, eu, minha esposa Glaucia e meus filhos Fernando (8) e Gabriela (11) não saíamos do complexo à espera dos jogos.

O melhor de tudo não foi o resultado das partidas, com a vitória do Brasil na repescagem e a próxima disputa no Grupo Mundial, mas a paixão pelo tênis que nasceu em toda a família, em especial naquela criança de apenas 8 anos de idade.

No último dia do torneio, Fernando fez um pedido especial: entrar em uma escolinha de tênis. Sim, ele é um dos legados da Era Guga! Meses depois já disputava seus primeiros torneios pela Federação do Rio de Janeiro.

Fernando Taricano BANANA BOWL 2006Fernando Taricano no Banana Bowl em 2006

Todos os fins de semana, eu e minha esposa levávamos nosso filho pra jogar nas mais distantes cidades do Brasil. Não existiam mais programas de família sem que primeiro avaliássemos o calendário do nosso novo atleta. Não demorou pra vermos que ele tinha muito jeito pro esporte. Um estilo agressivo, um pouco diferente da maioria dos meninos. Corria mais riscos, logo, errava mais. Eu sofria junto com o Fernando quando algo não dava certo na quadra. Mas nem por isso ele mudou o jeito de jogar.

Aos 9 anos recebeu um convite da nossa vizinha para ir ao cinema e respondeu: “Obrigado Tia, mas não posso. Tenho treino”. “Falta hoje, você está de férias”, disse ela. “Não posso, Tia. Tênis é o meu futuro”Na escola, Fernando sofreu bullying. Era o "turista" cabeludo que falava um dialeto estranho: top spin, slice, passada, back, drive, Nadal, Federer... Os ídolos do esporte eram outros.

Sempre fiz tudo o que estava ao meu alcance para que nosso filho pudesse ter o melhor treinamento possível. Fernando esteve entre os melhores do Rio e do Brasil, disputou muitos jogos pelo circuito COSAT e também ganhou torneios na Flórida, onde morou por 5 meses.

Fernando Taricano-2

Fernando Taricano MATERIA JORNAL GLOBOFernando em matéria do Jornal O Globo

Mas nem tudo são flores. Muitas vezes estivemos quase à beira da loucura, em momentos que marcaram a história e a carreira do Fernando. Aos 13 anos, numa das giras COSAT, ele estava na Venezuela e ia para o qualifying no Equador. O técnico não conseguiu embarcar, Fernando foi sozinho de Caracas para Guayaquil e ficou incomunicável por 8 horas. Ninguém sabia nos informar o paradeiro dele. Imagine a aflição de um pai e uma mãe sem notícias do seu filho!

Em outro torneio no Peru, Fernando ficou estirado no banco do aeroporto, com quase 40 graus de febre. Pelo rádio, eu e minha esposa orientávamos o treinador até ele ser atendido pela médica do aeroporto. Diagnóstico: infecção intestinal que ataca a maioria dos atletas que fazem a gira sulamericana. Já na Bolívia, Fernando foi ao Pronto Socorro, de onde saiu direto pra quadra para uma rodada dupla. Guerreiro, venceu seus jogos, mas acabou não resistindo ao cansaço no dia seguinte.

Fernando Taricano BRASILEIRÃO 2012 - SAQUE 2Fernando Taricano BRASILEIRÃO 2012 BACK

Fernando Taricano BRASILEIRÃO 2012 DRIVEFernando no Campeonato Brasileiro 2012

As lesões também fazem parte da vida de atleta. Fernando lutou, durante anos, contra sua primeira grande lesão no pé, que o impedia de sacar: quebrou o osso sesamóide durante uma partida pelo circuito brasileiro em Campinas. Perdeu no tiebreak, para o número 4 do Brasil na época, com o pé quebrado! Ao ouvir do médico que a lesão poderia tirá-lo do tênis pra sempre, Fernando chorou: “O que vou fazer da minha vida? Só sei jogar tênis.”

Quando tudo parecia resolvido, outra lesão tirava nosso filho dos jogos e dos treinos. Até que, um dia, o ortopedista Leonardo Metsavaht resolveu operá-lo e encontrou o problema: a ruptura de um tendão no dedo médio ocasionada pela pressão das pisadas durante os golpes. Resultado: Fernando treinou sentado numa maca na quadra, mas logo foi obrigado a parar e ficou meses sem jogar, o que nessa idade de 16 para 17 anos faz uma incrível diferença.

Depois veio a lesão no ombro, que também fez com que nosso filho perdesse outros grandes momentos no esporte. Agradeço ao fisiatra Gilbert Bang, profissional e amante do tênis, que teve um papel fundamental na vida do Fernando, especialmente nessa época.

Fernando Taricano BANGGilbert Bang e Fernando

Mesmo com tantos momentos difíceis, nós não desistimos. Quando vejo o Fernando em quadra, sinto um orgulho imenso e um prazer indecifrável pois sei o que significam pra ele, pra mim e pra nossa família todos esses anos de dedicação e superação. Imagino que, assim como o Fernando, muitos garotos e pais lutam por um lugar ao sol num país onde não há investimento nem incentivo ao tênis. Por isso não concordo com as críticas aos nossos tenistas que, muitas vezes, não alcançam os resultados que os torcedores desejam.

Ser pai de tenista é ver seu filho chorar porque perdeu quando não podia perder. Ver seu filho chorar porque venceu uma partida que precisava vencer. É viver intensamente o tênis.

Se me perguntarem onde vai parar a carreira do meu filho não saberei responder. Os planos pro futuro são outros, mas nossa união permanece. Hoje Fernando treina para conseguir uma bolsa no circuito universitário americano e nós continuamos ao seu lado, aonde quer que o esporte possa levá-lo. Essa é a nossa missão!

Fernando Taricano TODA A FAMILIAFamília Taricano: Fernando, Gabriela, Glaucia e Carlos

Carlos é pai do Fernando Taricano, atleta do Marina Barra Clube, treinado por Diego Vidal. Hoje ele está sem ranking por exigência do processo de aceitação do tênis universitário americano.

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